22.03.08
Imaturidade construída
Imaturidade construída
É sabido que certas dificuldades nos levam inevitavelmente ao amadurecimento. Entre os erros e os acertos de nossa vida buscamos o que melhor nos convém e isso faz parte do processo amadurecer. Na vida escolar isso não é diferente. Estudamos com mais afinco às matérias cujas dificuldades se acentuam. No estudo também amadurecemos diante das dificuldades. Mas quais são as dificuldades na escola da Progressão Continuada, aquela que na sabedoria popular denomina-se “passa sem estudar”?
O aluno ingressa no primeiro ano do ensino fundamental ainda com os resquícios mentais do jardim da infância, como não poderia ser diferente. Mas o fato se agrava, pois mesmo que não tenha atingido o desenvolvimento necessário à aprovação – até porque não lhe foi oferecido condição para tal – o aluno alcançará a série posterior. Ingressa-se na segunda série ainda com a mentalidade do “prezinho”, pois pouco ou quase nada lhe foi exigido. E a criança vai a escola brincar como se estivesse num parque de diversão. Mas na segunda série também não há reprova, passa-se à terceira sem qualquer dificuldade. E continua-se a brincar. Na quarta série brinca-se, “não reprova mesmo”. Na quinta idem e assim sucessivamente. E brinca-se de todas as formas, inclusive de fazer neném, uma vez que a sociedade erotizada na qual vivemos parece não dar muita importância à inevitabilidade biológica do amadurecimento do aparelho reprodutor humano. Chega-se à oitava série e a mentalidade escolar ainda está lá atrás, no jardim da infância, para o desespero dos professores. O adolescente vai à escola como se estivesse indo à creche. Pequeno na escola mas crescidinho fora dela.
Primeiro ano do ensino médio: Que maravilha! O indivíduo não sabe nem articular seu pensamento de forma escrita por mais simples que seja o texto e a idéia. Existe também aquela dúvida cruel do aluno que já freqüentou os oito anos do ensino fundamental: “brasil é com z ou com s, fêêêssor?” – a inicial quase sempre grafada minúscula.
Não é acaso que um número expressivo de “estudantes” desiste quando ingressa no ensino médio como apontam as estatísticas. Alegam dificuldades. Outros matriculados insistem. E professores que não conseguem ter a dimensão dessa complexidade julgam-se profissionais incapazes, incompetentes, poucos preparados. Aprovam os alunos movidos por pressões das mais diversas, incluindo a pressão da pena, do dó (do aluno e de si mesmo). A verdade é que se fosse levar a ferro e fogo reprovariam quase todos. Não há mais nada que o professor possa fazer. O próprio período de alfabetização já se foi, ficou lá atrás nos primeiros anos do ensino fundamental. Encaminha-se ao conselho de classe, arrasta-se uma “depê” aqui, uma “depê” ali e as séries transcorrem até, enfim, concluir o terceiro ano do ensino médio. Imaturo, diante das dificuldades que agora existem, tenta ingressar no mercado de trabalho. Tarde demais! “Fêssor ieu fisso tudo, má num consigo tabáio” comenta o ex-aprendiz e agora formado.
O fato é que com 16 anos o cidadão brasileiro pode intervir na vida política do país pelo meio do voto e maturidade escolar pode levar à maturidade política, algo desinteressante aos círculos dominantes. Logo, para que mudar? Continuemos brincando de escola. Deixa estar.
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criado por marcelobotosso
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