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Atravessando o estreito córrego chegamos à última etapa do inclinado caminho. E bota inclinado nisso. É o paredão. Aqui muitos desistem, mas já estivemos lá em condições adversas e vencemos, por que não venceríamos outra vez? Alias vencer não seria o verbo indicado, pois se tratando da montanha, o ideal é utilizar conquistamos. Não se vence uma montanha, conquista-se! Ela não é uma inimiga. Nos pusemos a “escalaminhar” com o resto de forças que tínhamos e em menos de 50 minutos lá estávamos. No topo. No cume. No Pico dos Marins. Aos 2.422 metros de altitude no Estado de São Paulo. Realmente, chegar lá e observar a paisagem é literalmente ir às alturas. Como diz a expressão popular: “Subir na vida”.
O cenário é belo e poético, com uma vegetação rarefeita no pico composta de gramíneas, alguns cravos silvestres, contando ainda com musgos e liquens, ar puro e sempre gélido, assim como o verde e a solidão dos vales e a imponência da cordilheira com o horizonte a perder-se no sem-fim em uma verdadeira dizima periódica de montanhas. São os mares de morros como é chamada pelos geógrafos a região da Mantiqueira.
Passando o momento de êxtase nos pusemos a armar o acampamento. Traumatizado com a experiência passada, armei minha barraca em meio a algumas moitas de capim no intuito de me proteger de possíveis ventos. Entretanto, a noite transcorreu bem, mas a menor rajada de ar eu ficava tenso. O firmamento lá do alto é assustadoramente belo e opressor. Parece que a qualquer momento pode desabar sobre nossas cabeças. Apesar do sinal do celular deixar a desejar, é possível ver os inúmeros satélites artificiais que circundam a Terra, sem contar as estrelas cadentes e o comportamento engraçado de alguns companheiros com aquela crendice de se fazer um pedido. De lá é possível ver as luzes de mais de uma dezena de cidades do Vale do Paraíba. Os companheiros autóctones arriscavam a dizer o nome de cada uma delas. Após muita conversa, piada e riso me recolhi ao meu aposento de 2,0 metros por 1,40 instalado sobre um nada macio solo rochoso. Ossos do ofício. Na madrugada o termômetro registrou – 2ºC e eu me encolhi na barraca, bem agasalhado, prevendo o congelamento da minha reserva de água que ficou do lado de fora. Dito e feito. Na manhã constatei que a garrafa estava dura de gelo e nada a fazer a não ser esperar o derretimento, me pus a contemplar o deslumbrante nascer-do-sol e as nuvens e brumas que passeavam por entre as montanhas. Tentar uma descrição daquela cena, por mais completa que seja, é trair o que se viu.
Passado algumas horas após o despertar de todos e bem antes do meio dia, recolhemos as tralhas e fizemos o caminho inverso, em declive, para chegarmos aos carros em aproximadamente 4 horas de caminhada e posteriormente buscarmos comida, banho e cama, desta vez merecidamente macia.
Bem diferente da primeira expedição, esta foi prazerosamente tranqüila. Saímos satisfeitos e eu, em particular, com planos de um futuro retorno ao topo de São Paulo.
criado por marcelobotosso
16:27:42