Marcelo Botosso

Blog pessoal de Marcelo Botosso. A proposta deste blog é divulgar e discutir assuntos relacionados aos temas que são de interesse pessoal e profissional do autor, tais como História, política, ciência, meio ambiente, música, esportes de aventura, etc

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Arquivo de: Março 2008

22.03.08

Imaturidade construída

Imaturidade construída

É sabido que certas dificuldades nos levam inevitavelmente ao amadurecimento. Entre os erros e os acertos de nossa vida buscamos o que melhor nos convém e isso faz parte do processo amadurecer. Na vida escolar isso não é diferente. Estudamos com mais afinco às matérias cujas dificuldades se acentuam. No estudo também amadurecemos diante das dificuldades. Mas quais são as dificuldades na escola da Progressão Continuada, aquela que na sabedoria popular denomina-se “passa sem estudar”?

O aluno ingressa no primeiro ano do ensino fundamental ainda com os resquícios mentais do jardim da infância, como não poderia ser diferente. Mas o fato se agrava, pois mesmo que não tenha atingido o desenvolvimento necessário à aprovação – até porque não lhe foi oferecido condição para tal – o aluno alcançará a série posterior. Ingressa-se na segunda série ainda com a mentalidade do “prezinho”, pois pouco ou quase nada lhe foi exigido. E a criança vai a escola brincar como se estivesse num parque de diversão. Mas na segunda série também não há reprova, passa-se à terceira sem qualquer dificuldade. E continua-se a brincar. Na quarta série brinca-se, “não reprova mesmo”. Na quinta idem e assim sucessivamente. E brinca-se de todas as formas, inclusive de fazer neném, uma vez que a sociedade erotizada na qual vivemos parece não dar muita importância à inevitabilidade biológica do amadurecimento do aparelho reprodutor humano. Chega-se à oitava série e a mentalidade escolar ainda está lá atrás, no jardim da infância, para o desespero dos professores. O adolescente vai à escola como se estivesse indo à creche. Pequeno na escola mas crescidinho fora dela.

Primeiro ano do ensino médio: Que maravilha! O indivíduo não sabe nem articular seu pensamento de forma escrita por mais simples que seja o texto e a idéia. Existe também aquela dúvida cruel do aluno que já freqüentou os oito anos do ensino fundamental: “brasil é com z ou com s, fêêêssor?” – a inicial quase sempre grafada minúscula.
Não é acaso que um número expressivo de “estudantes” desiste quando ingressa no ensino médio como apontam as estatísticas. Alegam dificuldades. Outros matriculados insistem. E professores que não conseguem ter a dimensão dessa complexidade julgam-se profissionais incapazes, incompetentes, poucos preparados. Aprovam os alunos movidos por pressões das mais diversas, incluindo a pressão da pena, do dó (do aluno e de si mesmo). A verdade é que se fosse levar a ferro e fogo reprovariam quase todos. Não há mais nada que o professor possa fazer. O próprio período de alfabetização já se foi, ficou lá atrás nos primeiros anos do ensino fundamental. Encaminha-se ao conselho de classe, arrasta-se uma “depê” aqui, uma “depê” ali e as séries transcorrem até, enfim, concluir o terceiro ano do ensino médio. Imaturo, diante das dificuldades que agora existem, tenta ingressar no mercado de trabalho. Tarde demais! “Fêssor ieu fisso tudo, má num consigo tabáio” comenta o ex-aprendiz e agora formado.

O fato é que com 16 anos o cidadão brasileiro pode intervir na vida política do país pelo meio do voto e maturidade escolar pode levar à maturidade política, algo desinteressante aos círculos dominantes. Logo, para que mudar? Continuemos brincando de escola. Deixa estar.
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  • Postado em 10:12:33

Brincando de vestibular. Brincando de ter futuro.

Brincando de vestibular. Brincando de ter futuro.

João Victor Portellinha, uma criança de oito anos de idade que cursa o quinto ano do ensino fundamental, prestou o vestibular da Unip (Universidade Paulista) para ingressar no curso de Direito e, acredite, foi aprovado. Indagado em uma entrevista sobre como fizera com as questões de Química e Física, sendo que tais disciplinas não compuseram a sua grade curricular, respondeu: “Ah! Meu pai tem uns livros sobre isso aí, eu dei uma estudadinha.” Lembro-me que no meu tempo de graduação, nós, alunos, e muitas vezes professores, saímos às ruas em atos unificados das universidades estaduais de São Paulo em defesa do ensino público, gratuito e de qualidade. Isso há mais de uma década, quando entoávamos de maneira jocosa palavras de ordem do tipo: “Defenda a universidade pública ou acabe numa privada”. Transcorrido o tempo e diante de fatos como o ocorrido com o garoto João Victor, ficou claro que a sociedade brasileira privilegiou a segunda opção de nossa jocosa e saudosa frase de ordem. Resta saber agora como essa mesma sociedade arcará com sua escolha. Talvez seja hora de apertar a descarga.
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  • Postado em 10:11:06