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Histórias de vidas
Marcelo Botosso*
Vidas que cruzaram décadas estão sendo ceifadas em questão de minutos. As imponentes figueiras da Avenida Fábio Barreto, bem como outras árvores próximas, estão sendo derrubadas para darem passagem às águas das chuvas. É o que alega a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. Diante da excessiva impermeabilização do solo, a água da chuva de uma ampla região corre para um único ponto: a calha do urbanizado Ribeirão Preto que não agüenta e transborda. É preciso chegar ao caos para se pensar na vida? Vidas de árvores e Homens que habitam essa cidade. Registro aqui minha pálida, porém ainda viva, esperança de que o problema das enchentes seja solucionado, que as árvores mortas sejam compensadas e que o ribeirão-pretano, a partir de agora, planeje melhor sua cidade. Histórias – de Homens e de árvores - não se constroem de uma hora para outra.
* é historiador.
Publicado no Jornal A Cidade 11/09/2008

"Nem tão longe que não possa ver/ Nem tão perto que possa tocar/ Nem tão longe que não possa crer/ que um dia eu chego lá". Esse é um fragmento da canção “A Montanha” da banda Engenheiros do Havaí. Letra conotativa que me inspirava (e inspira!) todas as vezes que visualizava em imagem ou pensamento o Pico dos Marins. Com aproximadamente 2.420 metros de altitude, o Pico dos Marins - um dos pontos mais altos de São Paulo - é um maciço colossal que se ergue na Serra da Mantiqueira na linha limítrofe dos Estados paulista e mineiro na região do Vale do Rio Paraíba do Sul.
Ainda pouco conhecido pelos paulistas, o Pico é uma excelente opção para quem quer caminhar literalmente acima das nuvens e sem precisar ir tão longe da capital.
Para se aventurar nesta empreitada, chamei o Jaime, amigo morador do Vale, que sem titubear topou a aventura convidando outros amigos também da região. Ele já havia feito a travessia duas ou três vezes e isso deu mais segurança à minha iniciativa. A expedição ficou marcada para meados de março de 2007, data comum a todos nós que pretendíamos conquistar aquela fascinante montanha do “Himalaia Brasileiro”, alcunha dada à Mantiqueira.
O dia da aventura se aproximava e para o nosso azar as águas de março deram as caras. Entretanto não fomos suficientemente racionais (e talvez nem corajosos) para adiar a aventura uma vez que tudo estava pronto e nossos ânimos exaltados, bem como a minha curiosidade aguçada.
Segunda quinzena de março: Com tempo fechado subimos em meio a uma névoa que não deu trégua durante os dois dias de expedição, tínhamos uma visibilidade limite de 10 metros de distância e gotas d’água prontas a despencarem dos céus. Para o nosso desespero, os fortes ventos também se faziam presente. Nos preparamos para pernoitar no cume. Nossas barracas estremeceram lá do alto. O vento não parava. Não foram raras as vezes que pensamos: “agora tudo vai pr’os ares”. Enfim ascendemos ao Pico. Lá acampamos. Pernoitamos. O vento não nos levou. Quase morri de medo. Não consegui dormir e descemos no dia seguinte sem sequer ter uma foto visualmente aceitável. Tampouco enxerguei aonde havia ido. Embora as condições estivessem altamente desfavoráveis àquela modalidade de aventura, o montanhismo, nenhum acidente ocorreu, exceto o destacamento da unha de um dedão do meu pé e de um outro companheiro. Apesar do pânico epidêmico que ameaçou o grupo, ficava uma certeza: eu tinha que voltar.
Na segunda vez...
Marcamos a expedição para o mês de junho, inverno, período ideal para a travessia. De abril a setembro a escassez de chuva é nossa aliada. Apesar do intenso frio que atinge com facilidade a casa do 0ºC nas altas altitudes, o tempo seco faz com que a visibilidade seja belissimamente compensadora. Há também a questão da segurança, pois sem neblina o risco de pegar uma trilha errada e acabar num desfiladeiro é infinitamente menor.

Levando na bagagem a experiência da aventura anterior, partimos bem cedinho e o lampejo da aurora à nossa frente sinalizava que a vinda do astro rei era iminente. De dentro dos carros ainda na rodovia, observávamos o céu, ávidos pelo dia ensolarado que a manhã sem nuvens nos prometia. Saindo de São Paulo em direção a Lorena pela Via Dutra pegamos a rodovia BR 459 em direção a Itajubá – MG. No caminho, passando Lorena, encontra-se o município de Piquete ainda no lado paulista. A rápida parada para o cafezinho num posto nesta cidade, aumentou a ansiedade e de forma súbita o sol começou a se exibir. A partir dali seguimos a mesma via fazendo, mais à frente, uma bifurcação à direita guiando-nos por uma placa que indicava o Bairro Dos Marins. A estrada de belo panorama seguia o contorno das montanhas e dos cursos d’água ao fundo dos vales fazendo jus ao título “cidade paisagem” que o município recebe. Tudo isso ainda no asfalto até entrarmos, à esquerda, numa estradinha de terra em aclive e com péssimas condições de trânsito. Na expedição anterior por muito pouco nosso carro não subiu tal ladeira enlameada e escorregadia.
Engraçado é que de dentro do carro, ainda no sinuoso caminho, nossos pescoços se envergavam e as cabeças se mexiam com rapidez de um lado para o outro, pois como crianças em busca de pipas no céu, procurávamos entusiasmados o “nosso” Pico no meio das elevações que despontavam na serra. Expectativa e gritos no carro: “É ele. Acho que é!?! Não. Não é. É. Será? Acho que não”.
Seguindo a mesma estrada, ora pavimentada com blocos de concreto, ora chão batido e acometida por alguns indícios de voçoroca, passamos por um portal rústico feito em madeira com a inscrição “Bem-vindos a Marmelópolis-MG”. Enfim chegamos no último ponto onde ainda é possível o acesso de um veículo de rodas. Dali pra frente só a pé. Inspecionamos todo o equipamento e realizamos uma breve sessão de alongamentos para resistir à árdua subida de aproximadamente 5 horas. Apertam-se os calçados e ajustam-se as mochilas cargueiras ao corpo. E vamos nós!
Na trilha íngreme, a etapa inicial é chegarmos ao Morro Careca onde se começa efetivamente a trilha que nos levará ao ponto culminante. Neste trecho nos deparamos com alguns saborosos e raros morangos silvestres conhecidos localmente como morango bravo.
Céu de brigadeiro. O dia estava pra lá de claro. Luminosidade total. Do descampado Careca, como o próprio nome sugere, avistamos o rochoso Pico dos Marins. “Puxa! Como é alto” exclamou o companheiro Sérgio que tempos atrás, do mesmo ponto, nem sequer conseguiu enxergar a montanha naquela fatídica expedição de março.
Caminhando aproximadamente uns 100 metros, encontramos uma área remanescente de mata atlântica com plantas de folhas largas e perenes. Lá se concentram exemplares de imbaúbas, jequitibás, cedros, quaresmeiras, ipês, samambaias, taquaras entre outros. Curioso notar que o ponto inicial da trilha do Pico dos Marins fica em Minas Gerais, município de Marmelópolis, e a medida que se sobe adentra-se em São Paulo, município de Piquete. Mas como fica patente, a natureza pouco se importa se há divisões políticas territoriais, ela segue seu curso independente de decretos e conveniências administrativas governamentais. Todavia, é necessário passar no meio da densa vegetação de mata atlântica que em poucos minutos de caminhada nos abandona cedendo lugar aos campos de altitude (ou campos rupestres) com sua vegetação predominantemente gramínea, pouco comum aos olhos tropicais do brasileiro. Ah! Não cabe deixar de registrar que fomos brindados com a aparição inusitada de um ágil esquilo no meio da mata.
Ao contrário da primeira expedição, onde só nós subíamos, nesta segunda encontramos alguns grupos pelo caminho que faziam o operacional bate-e-volta. Nele, por prescindir do pernoite, você se livra do peso exaustivo que uma mochila cargueira aloja. Uns chegavam ao cume, contemplavam, fotografavam e voltavam, outros desistiam na metade da rota, paravam, se recompunham e desciam.
Iniciamos a trilha com aproximadamente 15 quilos nas costas, mas ao passo em que os minutos e as horas passavam o peso da bagagem parecia multiplicar-se numa progressão geométrica. A temperatura amena dos dias nas montanhas evitava que o suor corresse em bicas. O solo pedregoso dos campos de altitude tornava-se cada vez mais sólido, como se começássemos caminhar sobre uma única e imensa pedra. Naquele momento de introspecção eu imaginava quantos milhões de toneladas teriam aquele maciço. Puro devaneio causado pela consciência de ser ínfimo frente à imponência da montanha. Sempre-vivas, bromélias, orquídeas, canelas-de-ema ficavam cada vez mais raras à medida que conquistávamos altitude, mas uma flor de vermelho intenso, espécie de lírio, brotava da rocha em vários pontos ignorando a ausência de terra e as condições inóspitas de frio intenso, ventos e fortes geadas.
Em determinados pontos era preciso utilizar mãos e pés se quisessemos vencer os obstáculos que nos foram impostos de maneira caprichosa pela natureza, numa verdadeira “escalaminhada”. A trilha possui algumas marcações, como totens que são pedras sobrepostas, sinalizando o local correto de passagem. É preciso ficar atento. Tomar o caminho errado pode resultar num acidente, por vezes fatal. Quase instintivamente eu ia à frente guiando o grupo, tamanha vontade e disposição de chegar ao cume.
Em aproximadamente 2000 metros, atingimos uma espécie de vale onde existe uma nascente com água escura e uma placa indicando esta ser imprópria ao consumo humano. Aquela água me era familiar, mas o entorno não. Pudera, da outra vez que lá passamos não enxergamos muito além da ponta dos nossos dedos com os braços estendidos. Na época, a umidade do lugar intensificava a neblina.